Estava a pensar sobre uma reportagem que vi ontem (04/07/09) num canal de televisão aberta, onde o repórter foi cumprimentar um médico, e este não correspondeu, pois poderia ser contaminado com o vírus da gripe A (vírus H1N1). Em seguida, ao longo da reportagem, outro médico informando que há necessidade de lavar as mãos umas 30 vezes ao longo do dia, pois o vírus se instala entre os dedos, na ponta dos dedos, na palma da mão, etc… Ainda na mesma reportagem, pessoas dizendo que tomavam vários banhos ao longo do dia com medo do vírus. Fiquei chocado. Continuando a reportagem, foi falado sobre o povo latino, mais “caliente”, chegado ao abraço, ao afeto, ao contato. Foi dito que esse povo está mais sujeito às infecções pelo dito vírus da gripe A. Lembrei imediatamente dos comportamentos obsessivos-compulsivos.

Não tenho mais dúvidas sobre a neurotização de nossa sociedade. Parece que estamos numa vida a MONK (seriado da TV fechada sobre um detetive com transtorno obsessivo-compulsivo, que sofre horrores por ter que lidar com cenas de crimes, cadáveres, etc…) Em seguida, me reportei mentalmente a alguns significantes de uma vida de qualidade: amizades, amor, afeto, ternura, contatos, abraços, vinculações, etc… Onde estará a qualidade de vida dos seres humanos em alguns anos, já que estamos sendo levados à privação desse tipo de vida afetiva, de contato, de alegria? Sabemos que o sistema imunológico funciona em plena carga quando as pessoas amam, se apaixonam, se encontram, curtem, vivem a vida, se alegram, se sentem felizes, partilham, fazem contatos saudáveis, praticam o amor, o beijo, o sexo, etc… Como viver assim no mundo de hoje.

Há pouco tempo vivemos a crise da AIDS, onde os contatos passaram a ser censurados; agora esse vírus danado, que se mostra uma mutação dos seus primos pobres, as gripes comuns. Me permito perguntar: os vírus estão mais fortes e são capazes de atacar nosso sistema imunológico, ou nosso sistema imunológico está mais fraco e suscetível a todo tipo de invasores perniciosos? Acho que as duas coisas. Passamos anos tomando drogas cada vez mais pesadas para melhorar a qualidade de vida, e parece que conseguimos fortalecer nossos invasores, e ao mesmo tempo, aumentamos a quantidade de anos vividos e diminuímos a qualidade de vida, o que permitiu um sistema imunológico frágil e com poucas condições de manter a vida em grau aceitável. Numa hora como essas, me permito ainda questionar: onde estão os profissionais de saúde? Cada ano eu encontro mais profissionais de doenças, e menos profissionais de saúde.

Nós, profissionais de “saúde”, estamos sendo treinados para manter nossos olhos nas doenças: somos pagos para cuidar das doenças, combater as doenças, os laboratórios desenvolvem produtos e serviços para as doenças, os equipamentos, cada vez mais modernos são desenvolvidos para encontrar e combater doenças. E o SER? E a saúde? Quem está se preocupando com a saúde? Será que saúde passa a ser o homônimo para falta de doença, para falta de sintomas? Estamos esquecendo que saúde deriva do termo latino Salus: inteiro, intacto, harmônico.

Saúde é um estado de harmonia, de equilíbrio, não necessariamente de ausência de doença. E a OMS sabe disso. E nossa sociedade, tão neurotizada, amedrontada pela forma de vida urbana violenta, caracterizada pelo roubo, pelo ataque, pela fraude, pela falta de sensibilidade, pela opulência, pela enganação, pela falta de moral e bom senso, pela ludibriação ética, e tantos achaques de igual tipo e monta, só pode estar adoecida o suficiente para gerar cada vez mais situações catastróficas, descompensadoras, desequilibrantes, patologizantes. Qualquer noticiário, televisivo ou impresso, só faz sucesso às custas das catástrofes, do crime, da falta de ética, do escândalo, da morte. Se metade dos valores investidos em guerras, escândalos e doenças fossem investidos em educação, segurança e saúde, e principalmente, em educação para a saúde, em manutenção de saúde, em promoção de saúde – como bem prega nossa Constituição e todas as Normas Operacionais em Saúde, certamente não estaríamos vivendo, no Brasil – e certamente no resto do planeta, situação tão insalubre quanto as que são oferecidas em nossos dias.

À classe política outorga-se o poder de defender seus habitantes (não me permito nem falar seus eleitores), mas mostra-se cada vez menos preocupada com o futuro dos seus, a não ser nas questões financeiras e econômicas (dos SEUS); perpetuam esse circo dos horrores, e os vemos igualmente morrendo como os pobres: doentes, vitimados pelo câncer, pelos problemas cardíacos, pelo estresse, etc… No mínimo é uma falta de sanidade ou de inteligência não ter a visão sobre o seu próprio futuro. Sinto que estamos fadados a viver mais tempo, para sofrer por mais tempo.

Mas sinto também que é hora de tomarmos providências severas, emergentes, de curto e de longo prazo. De curto prazo atuando no mal. De longo prazo atuando nas crianças e jovens através da educação, pois não cabe mais somente pensar no planeta que vamos deixar para nossos filhos, mas no filhos que vamos deixar para nosso planeta.

Roberte Metring

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Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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