Reproduzido na íntegra do Serviço Integrado de Neuropsicologia

Hoje, o SIN apresenta um tema relevante no processo de ensino-aprendizagem, notadamente no âmbito escolar: a dislexia. No entanto, antes de compreender o transtorno proposto, torna-se necessário compreender como adquirimos o domínio da leitura e da escrita.

A partir de estudos com crianças em processo de aquisição da leitura e escrita, bem como de pacientes neurológicos com distúrbios em tal processo, diversos pesquisadores descreveram as três etapas pelas quais as crianças percorrem no processo de aquisição da leitura e escrita, a saber: estágio logográfico, alfabético e ortográfico (Capovilla et al., 2004).

Desse modo, antes de efetivar o domínio da leitura e escrita, a criança passa por três estágios. O estágio logográfico corresponde aquele no qual a criança trata o texto como se fosse um desenho, não atendendo ao código de correspondências entre determinadas letras e combinações de letras (isto é, grafemas) e seus respectivos sons das palavras (isto é, fonemas). Nesse estágio, a leitura consiste no reconhecimento visual global de algumas palavras que a criança encontra com frequência, tais como seu nome próprio e nomes familiares como aqueles impressos em rótulos de comidas e bebidas disseminadas na mídia com frequência.

O estágio seguinte é o alfabético. Neste a criança começa a fortalecer as relações existentes entre o texto e a fala. Há o desenvolvimento da estratégia fonológica e, por conseguinte, a criança aprende o princípio da decodificação na leitura e escrita, ou seja, aprende a converter as letras do texto escrito em seus sons correspondentes (decodificação grafo-fonêmicas), bem como aprende a converter os sons da fala ouvidos em seus grafemas correspondentes (codificação fono-grafêmicas).

Na medida em que a criança tem maior contato com a leitura e escrita, ela começa a aprender que há palavras irregulares nas relações de decodificação grafo-fonêmicas e codificação fono-grafêmicas, assim como desenvolve a estratégia lexical. Nesta perspectiva, as crianças tornam-se leitores fluentes com boa pronúncia na leitura e boa produção ortográfica na escrita, pois se utilizam da estratégia lexical, ou seja, se utilizam da memória, no lugar de utilizar exclusivamente a estratégia fonológica (decodificação grafo-fonêmica e codificação fono-grafêmica).

Todavia, comumente encontramos crianças e adultos com significativa dificuldade na aquisição da habilidade de leitura fluente e escrita com acurácia. Tais dificuldades atingem de forma severa cerca de 10% das crianças em idade escolar e, se também forem considerados os transtornos leves, este percentual chega a 25% (Piérat, 1997 como citado em Capovilla, 2008, p. 252).

De acordo com a quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, DSM-IV, a dislexia é um “transtorno específico no aprendizado da leitura, com rendimento escolar que se situa inferior ao esperado em relação à idade cronológica, ao potencial intelectual e à escolaridade do indivíduo.”

Segundo o National Institute of Health americano, a dislexia do desenvolvimento é a principal causa das dificuldades na aquisição da leitura fluente e escrita com acurácia. Caracteriza-se como transtorno de aprendizagem específico de linguagem e pode ser classificada em três tipos: dislexia fonológica, dislexia morfêmica (também designada como de superfície ou semântica) e dislexia mista (Capovilla et al., 2004; Capovilla, 2008).

Nesta perspectiva, na dislexia fonológica há dificuldades de leitura pela rota fonológica, logo, há dificuldades na conversão letra-som e, por conseguinte, entraves na leitura de pseudopalavras e palavras desconhecidas. Na dislexia morfêmica, há dificuldades na leitura pela rota lexical, assim, o leitor lê por um processo exacerbado de análise e síntese fonética; bem como há entraves na leitura de palavras irregulares e longas. Já a dislexia mista, transtorno de aprendizagem disléxico mais grave, envolve dificuldades de leitura em ambas as rotas, fonológica e lexical (Capovilla et al., 2004; Capovilla, 2008; Capellini, 2006).

Haja vista tais considerações, a detecção de dificuldades de aprendizagem compatíveis com transtorno de aprendizagem disléxico exige avaliação neuropsicológica criteriosa, sem perder de vista procedimentos que possibilitem determinar o nível funcional do paciente; o potencial que ele possui; a extensão da deficiência da dislexia; a disfunção neuropsicológica subjacente ao quadro clínico; os fatores sócios afetivos associados e as estratégias de desenvolvimento da leitura e escrita utilizadas pelo paciente (Capellini, 2006).

Em última análise, o perfil neuropsicológico compatível com dislexia exige análise crítica de aspectos neurodesenvolvimentais envolvidos na maturação de regiões corticais ativas no processo de aquisição da leitura e escrita, especialmente em crianças em fase de alfabetização; bem como questões relativas à defasagem escolar frequentemente observada em crianças de idade avançada e adultos que já se encontram alfabetizados, mas apresentam sérias dificuldades na habilidade de leitura fluente e escrita com acurácia.

Referências bibliográficas:

Capellini, S. A. (2006). Abordagem neuropsicológica da dislexia. In: C. B. Mello, M. C. Miranda & M. Muszkat (orgs.). Neuropsicologia do Desenvolvimento: conceitos e abordagens (pp. 162-179). São Paulo: Memnon.

Capovilla, A. G. S. (2008). Dislexia do desenvolvimento: definição, avaliação e intervenção. In: A. L. Sennyey, F. C. Capovilla & J. M. Montiel, Transtornos de Aprendizagem: da avaliação à reabilitação (orgs.) (pp. 251-260). Porto Alegre: Artes Médicas.

Capovilla, A. G. S., Capovilla, F. C., Suiter, I. (2004, setembro/dezembro). Processamento cognitivo em crianças com e sem dificuldades de leitura. Psicologia em Estudo, Maringá, 9 (3), 449-458.

FONTE: Serviço Integrado de Neuropsicologia

__________________

Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
Psicoterapia – Consultoria – Cursos – Palestras
 Docência – Supervisão
contato@psicologoroberte.com.br – www.psicologoroberte.com.br