Sou um homem de muitas viagens, muitas mesmo, mais do que eu mesmo teria imaginado ser capaz há 20 anos. Acredito que já viajei mais num único semestre do que a maioria das pessoas durante a vida toda. Na maioria das vezes à trabalho. Mas não deixou de ser viagem. E toda viagem a um novo lugar, a uma nova cultura, é de certa forma ameaçadora.

Também já aprendi a fazer outro tipo de viagem, a viagem ao centro de mim mesmo, e acreditem, é ainda mais ameaçador, principalmente porque sempre me neguei a fazer uso de qualquer agente psicoativo, sempre encarei minhas viagens ao mundo material e ao mundo espiritual de cara limpa, e o terror parece bem maior, o custo da viagem, também. Mas as recompensas também. Já encontrei pessoas e lugares majestosos, fora de mim, e já encontrei a mim mesmo, as vezes de forma majestosa, outras não.

No entanto, nunca pude descrever esses momentos, essas viagens, de forma tão clara quanto fez o padre Fábio de Melo no seu texto O PESO QUE A GENTE LEVA.
Segue o texto:

O peso que a gente leva…

Há coisas que quero levar, mas não podem ser levadas.

Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem ser levadas. Excedem aos tamanhos permitidos. Já imaginou chegar ao aeroporto carregando o colchão para ser despachado?As perguntas são muitas… E  se eu tiver vontade de ouvir aquela música? E o filme que costumo ver de vez em quando, como se fosse a primeira vez?

Desisto. Jogo o que posso no espaço delimitado para minha partida e vou. Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então, inevitavelmente concluo que mais da metade do que levei não me serviu para nada.
Nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de sofrer ausências. E nisso mora o encanto da viagem. Viajar é descobrir o mundo que não temos. É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a mensurar o valor do mundo que nos pertence.

E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar: “Bom é partir. Bom mesmo é poder voltar!” Ele tinha razão. A partida nos abre os olhos para o que deixamos. A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo. Ao ver o mundo que não é meu, eu me reencontro com desejo de amar ainda mais o meu território. É consequência natural que faz o coração querer voltar ao ponto inicial, ao lugar onde tudo começou. É como se a voz identificasse a raiz do grito, o elemento primeiro.

Vida e viagens seguem as mesmas regras. Os excessos nos pesam e nos retiram a vontade de viver. Por isso é tão necessário partir. Sair na direção das realidades que nos ausentam. Lugares e pessoas que não pertencem ao contexto de nossas lamúrias… Hospitais, asilos, internatos… Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar.
Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve.
Padre Fábio de Melo
Ao deitarmos para descansar o corpo à noite, iniciamos uma viagem, a um mundo desconhecido. Ao abrirmos os olhos ao acordar, descemos na estação da vida consciente, e passamos para outro vagão, para continuarmos nossa viagem. Todos os minutos são viagens.
Desejo que cada pessoa que ler essa mensagem se alerte para isso, que estamos sempre em viagem. Que pensem em quanta quinquilharia será necessário deixar para traz para poder seguir em frente. E não há opção, ou você segue em frente, ou passa a morar na estação da vida, cuidando de coisas, que ao final, talvez não façam sentido. Escolha o que levar com você, e siga viagem, seja para um mundo novo fora de si, ou para um mundo novo dentro de si, não importa, só não perca a viagem.
E pode acreditar, no fim, somente vai importar mesmo são as pessoas com quem você viajou, as memórias que criou, e as experiências que tenha vivido, tenham elas feito sua viagem mais feliz ou não. Porque da bagagem mais cedo ou mais tarde você vai acabar se livrando, perdendo ou renovando…..
Roberte Metring

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Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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