É francamente observável, nos dias atuais, a quantidade de pessoas que não conseguem mais discernir entre o que é saudável ou tóxico para si mesmos, coisa que qualquer animal é capaz de fazer com relativa facilidade. Vivemos, nós humanos, num momento histórico do consumo em massa e por força da massa. Muitos de nós simplesmente aceitamos a moda, a pressão do marketing e da propaganda na tentativa de darmos por realizados nossos desejos. Mas, que desejos? A capacidade de discernir entre o que nos serve e o que não nos serve, está atrelada diretamente a nossa capacidade de estarmos conscientes de nossos desejos – emocionais, afetivos, corpóreos, etc., e para isso acontecer, é necessário que possamos fazer um ótimo reconhecimento de nosso organismo como um todo (andei percebendo que os animais sabem fazer isso sem dificuldades).
Esse processo se inicia na infância, quando nos é permitido um bom reconhecimento de nosso corpo, através dos toques e do afeto recebidos de nossas mães e pais – ou daquelas pessoas que por ventura os substituíram seja por que motivo for, que gerarão sensações, sentimentos e emoções, que uma vez aprendidas, serão levadas como referência para o resto da vida, por onde vamos filtrar tudo aquilo que nos chega, e decidir se nos serve ou não nos serve, se devemos nos aproximar ou nos afastar, se devemos permitir ou não permitir. Insisto, os animais fazem isso com relativa facilidade.
No entanto, ao longo dos últimos anos, por força das necessidades financeiras emergentes, pais e mães não mais tem tempo para seus filhos, para os toques, para as brincadeiras, para os afetos. Todos, pais e filhos, chegam cansados à boca da noite, rezando por uma cama ou um pouco de descanso. Não há mais brincadeiras, não há mais espaço para conforto e carinho. Claro, estou levando em consideração que foi permitido à criança pelo menos ter uma casa – nem estou falando em lar. Assim, acabamos vendo as crianças crescendo sem noção sobre si mesmas. Aprendem desde cedo a se comportarem dentro do padrão apresentado e exigido pela grande massa: na escola, nos clubes, nos círculos de relacionamento, nos grupos onde estão inseridas, do bairro onde moram, da igreja que freqüentam, etc… Essa grande massa, também, na maioria das vezes, não sabe o que serve ou não, pois é composta de pessoas que, igualmente, não aprenderam a fazer suas escolhas.
E essa grande massa passa a ser dirigida por pessoas formadoras de opinião, que não raro também estão perdidas de si mesmas. Enfim, estamos criando um enorme buraco negro, para onde crianças, adolescentes e jovens de todas as classes sociais, poder aquisitivo e desenvolvimento intelectual estão sendo sugados. Não bastasse isso, ainda temos hoje as comunidades virtuais, que, se de um lado permitem uma integração impossível há pouco tempo, onde tempo e espaço ficaram simplesmente abolidos, por outro lado, estão destituindo a função do corpo na vida das pessoas. As pessoas já não percebem nem mesmo que para usufruir das benesses virtuais, ainda assim precisam de um corpo, mesmo que este fique preso, sentado, parado frente a um teclado e um monitor. Estamos deixando de experimentar a vida. Brincadeiras, passeios, parques, amizades, jantares, encontro de amigos, rodas de chimarrão, bons papos, etc., estão cada vez existindo menos. Está faltando contato. Sem corpo, sem noção, sem estado de consciência, não seremos capazes de escolher entre o que nos serve e nos nutre (física, emocional e psiquicamente), ou aquilo que nos é tóxico, e que deveríamos evitar. A geração atual de crianças, se pais e mães não se derem conta, será um grupo de pequenos robozinhos seguindo uma marcha insólita rumo ao nada. Qualquer coisa pode servir para acalmar suas ânsias, mas nada de verdade servirá para aplacar as energias associadas aos desejos não reconhecidos, não realizados.
Teremos cada vez mais jovens no mundo virtual, utilizando drogas de todo tipo e se afastando dos contatos com outras pessoas. Reforço que deveríamos observar mais os animais, seguir alguns exemplos de vida saudável. Estamos formando uma geração incapaz de “separar o joio do trigo” de suas próprias vidas, e, é notório, por causa disso, que a maioria dos jovens hoje está ficando com o joio que lhes é entregue fácil, pois sempre haverá mais joio que trigo, e alguém está ficando com o trigo. Não consigo deixar de pensar que os animais conseguem separar o que lhes serve do que não lhes serve, e praticar o bem estar. Para quem não sabe onde quer ir, qualquer lugar serve, e nenhum trará a sensação do prazer, o que, invariavelmente, continuará deixando aquele enorme buraco emocional, e a busca incansável da felicidade, que nunca chega, nunca chegará. Precisamos voltar a promover o contato, promover a primeira infância, devolver a infância às crianças, devolver a adolescência aos adolescentes, devolver a juventude aos jovens, devolver a vida aos vivos, devolver a humanidade aos humanos.
Família, sociedade e profissionais das mais variadas áreas devem incorporar sua responsabilidade social, e, segundo suas disponibilidades, segundo seus referenciais, segundo suas habilidades e habilitações, devem iniciar um processo de re-humanização social – afetiva, emocional, orgânica – num momento em que estamos preferindo mais humanizar os animais (que me perdoem os animais por isso), do que permitir uma vida humanizada aos humanos.
A educação faz com que as pessoas sejam fáceis de guiar, mas difíceis de arrastar; fáceis de governar, mas impossíveis de escravizar. (Henry Peter)
Pensemos nisso

Roberte Metring

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Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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