Uma faca no pescoço, um olhar insano e uma exigência: dinheiro. Cena cotidiana de muitos assaltos registrados nas ruas da cidade? Não. A vítima é uma mãe, e o homem que a ameaça é seu próprio filho, de 26 anos. Tudo isso dentro de um amplo apartamento, de frente para o mar, num bairro nobre da Grande Vitória. A motivação de tamanha violência? Crack. A droga que domina o tráfico na Região Metropolitana cada vez mais invade lares de famílias de classe média. João (nome fictício), o jovem que ameaçou a mãe, liberado há 15 dias da sua 12ª internação por causa da dependência química, é apenas um entre muitos casos iguais.

Claudia Feliz, Gazeta on line, 23/08/09, Reportagem Especial: A tragédia do crack chega à classe média.

Sou um sujeito que trabalha desde os 10 anos de idade. Atualmente cumpro uma jornada que, em muitos casos, vai de segunda a segunda, muitas horas por dia. Pago meus impostos, compulsoriamente, pois vem tudo devidamente descontado. E tenho certeza absoluta que esse dinheiro deveria estar sendo destinado a três campos da existência humana: educação, saúde e segurança.

Quando vejo um artigo ou uma notícia como a que posicionei ao início do texto, fico a me perguntar o que está acontecendo. Calma, não estou começando a fazer apologias, nem tampouco procurando culpados, mas sim cúmplices.

Quais são os meus cúmplices no uso do dinheiro que sai do meu bolso, que bem poderia estar servindo para comprar uma casa para mim, melhorar as condições de vida dos meus filhos, ou simplesmente sendo utilizado para meu prazer e lazer, como por exemplo, uma viagem de férias? Então, fico mais tranqüilo quando sei que está sendo utilizado para melhorar as condições de vida de muitos brasileiros, irmãos de pátria (ironia!), principalmente de alguns que trabalham em Brasília. Certamente o leitor saberia o nome de alguns deles. E viajando como viajo pelo Brasil todo, sou testemunha de como o Brasil é quase uma Suíça (ironia novamente!). Um jovem, ou uma criança necessitam de um motivo bom para viver, e de condições para isso, correndo o risco de querer buscar a tão sonhada felicidade de formas alternativas quando não conseguem encontrá-la nos meios normais (lares). Mas isso não é tudo. Muitos jovens e crianças, além de não estarem recebendo a tão “sonhada” dose de felicidade, não recebem igualmente a estrutura necessária para conquistá-la por si mesmos. Algumas famílias dão de mais (o que é uma droga por si só) outras dão de menos (o que gera a necessidade de buscar em meios alternativos). Por traz de uma pessoa dependente de drogas (seja qual for: crack, álcool, cocaína, sintéticos, adrenalina, etc) sempre encontramos uma questão de alto-estima mal resolvida, de uma forma de ver o mundo, distorcida. Sempre há a responsabilidade de pai e mãe, sim. Daí me pergunto: o ocorrido na notícia acima deve ser repensado? Sendo a mãe, parte integrante do problema (sempre é), deve arcar realmente com os custos da ineficiência na educação daquele ser, talvez com a própria vida? O que acham os leitores?

Bem, é certo que ela seja cúmplice sim. Mas… espera ai, precisamos pensar mais. Quem disse que essa mãe sabia o que fazer? Quem disse que essa mãe (ou pai) tinham instruções para serem pais? Afinal, não conheço ninguém que tenha uma carteira de habilitação para ser pai ou mãe.

Sou obrigado, agora, a colocar um parceiro na história: o Estado. Afinal, a Constituição Brasileira dá sinais (?!?!) de que a educação, a saúde e a segurança são papel do estado, e direito do cidadão. E o fato relatado é o sinal marcante da falha nas três instâncias. Por educação, devemos entender o papel do Estado na preparação de pessoas para viver, e não na preparação de consumidores, ou de mão de obra especializada, que será descartada do mercado no primeiro momento em que apresentar problemas de comportamento ou de saúde. Descartada mesmo, como papel velho, tanto pelo Estado, como pelos mantenedores de seu comportamento molestado e pernicioso.

Por saúde, devemos entender a disponibilização de meios e profissionais com habilidade e competência na promoção e prevenção, e não simplesmente na “remediação”, como vemos hoje (com o que a população já se acostumou, diga-se de passagem). E olha que nesse quesito, podemos dizer que funciona mal e porcamente, pois também não vemos condições de dar nem mesmo esse tipo de atendimento com alguma dignidade pelo serviço público, não porque os profissionais não desejam fazê-lo, mas porque não tem condições de fazê-lo.

Por segurança, devemos entender a capacidade do Estado em manter a lei e a ordem, permitindo uma vida digna e tranqüila a qualquer cidadão, em qualquer lugar, desde a favela até o mais requintado e nobre morador de um baixo chique de qualquer cidade. Mas infelizmente, isso não ocorre, nem num, nem noutro caso, embora, quando afete o nobre, todos corram a realizar os melhores trabalhos em segurança. Quanto ao pobre, existem os camburões do IML. Mas voltemos ao nosso usuário de crack. Algoz ou vítima? O que me dizem?

E quanto à mãe? Culpada ou inocente?

E quanto ao Estado? O que dizer? Todos cúmplices, tanto o usuário, quanto à mãe, o pai e o Estado. Todos falharam, e continuam falhando. O número de usuários de drogas aumenta todo dia, no Brasil e no mundo. Parlamentares desejam liberar o uso das drogas, como se com isso pudessem simplesmente acabar com o problema. De certa forma, acabam mesmo. Pois não sendo mais contravenção, não é mais preocupação do Estado, liberando o fator segurança. E quanto à impunidade? E as questões de saúde pública, já que os usuários acabam causando transtornos de toda ordem à população e aos órgãos públicos? O que pensar do Estado, que por pecar na atenção aos seus habitantes, deixam-nos à mercê de todo tipo de tráfico, assaltos, e mortes. O que pensar? E o que fazer com aquele usuário da notícia? Décima segunda internação! Não parece um tanto demais leitores? O que faz com que não exista uma forma compulsória de manter a pessoa em tratamento, pois não é só um perigo para si própria, mas para toda a sociedade. Até agora, é um usuário com problemas que precisa de ajuda. Mas depois de matar a mãe, será somente um assassino. E daí, o Estado certamente saberá o que fazer, pois temos a cultura da remediação, e um assassino deve ser afastado da sociedade, preso, etc e tal.

Parece que será necessário que ele mate alguém para que o Estado possa ajudar essa mãe, se é que a vítima não tenha sido ela mesma. Temos visto reportagens de mães amarrando seus filhos com corrente para afastá-lo das drogas, e sendo presa, ou pelo menos difamada pela sociedade e pelos Direitos Humanos (???). Mães implorando para que o Estado tome providências no sentido de uma internação, de um tratamento, ou coisa assim. Todos conseguem ver o perigo, menos o Estado, através de seus legisladores e do seu judiciário. Infelizmente, parece que teremos que esperar o pior acontecer para que o Estado tome providencias. E tantos outros jovens estão entrando, nesse momento em que você lê, no mundo das drogas, do roubo, das matanças. A culpa é nossa, enquanto Estado (pela burrice que nos toma e permite a perpetuação de tamanho disparate político); nossa enquanto educadores (pela falta de preparo, pelo excesso de zelo no amor, por não saber dizer sim e não adequadamente); nossa enquanto cidadãos, que permitem que espíritos tomados pela anormalidade dominem a sociedade, quando permitimos crianças e adolescentes fazendo o que bem entendem, quando não nos penalizamos junto com aqueles a quem amamos, no sentido de criarmos condições, não de recuperação, mas de formação de estrutura afetiva, emocional, psicológica e de personalidade capazes de permitir a busca de caminhos sadios, não para o encontro da felicidade, mas para simplesmente ser feliz no caminhar pela vida. Não somos culpados, nem vítimas. Somos todos cúmplices. Cada um de nós é cúmplice, dando uma pequena parcela aos desatinos da sociedade humana. Precisamos ver os sinais, e tomar providências antes que a própria sociedade humana passe a sofrer da normose dos desatinos, e desapareça de forma jurássica.

Roberte Metring

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Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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