Assisti recentemente, como faço há muitos anos, palestra sobre meio ambiente e educação ambiental. Achei fantástica a proposta didática na impecável apresentação dos slides; os conceitos são realmente fascinantes e os vídeos tão surpreendentes quanto comoventes. Fiquei encantado!

Acontece que meu encantamento foi amenizado pelo próprio palestrante quando ao final do evento o flagrei jogando o papel do chiclete no chão. Ao perceber que eu vi o que ele havia feito sorriu sem graça dizendo: “este papel é solúvel”. Percebi a falta de coerência entre discurso e prática. Imperdoável para aquela pessoa, naquele dia, naquele momento.

O jovem professor pediu desculpas, apanhou o pedacinho de papel amassado e o jogou no cesto de lixo. Mesmo assim, continuei a observá-lo discretamente enquanto desmontava seus equipamentos e senti que ele havia ficado envergonhado de si mesmo. Menos mal para o meio ambiente, porém extremamente doloroso para o moço!

Pude perceber que aquele palestrante autoconfiante e cheio de convicção durante a conferência perdera muito de seu brilho depois do efêmero e vergonhoso episódio. Já não olhava mais com tanta firmeza e confiança nos olhos das pessoas que iam cumprimentá-lo pela excelente exposição. Ele havia perdido sua força interior, pois sua autoestima acabara de receber um baque.

Ele perdera sua integridade pessoal naquele exato momento.

Um gigante sobre educação ambiental que havia respondido brilhantemente diversas perguntas polêmicas e difíceis sem se abalar, agora se encontrava derrubado por um simples pedacinho de papel.

Passou duas horas aproximadamente combatendo ferrenhamente o descuido com o lixo pessoal; encheu a tela com estatísticas estarrecedoras sobre o impacto ambiental causado pelo lixo que produzimos; não poupou críticas às pessoas mal educadas, às famílias que não fazem coleta seletiva de seu lixo, excomungou governantes e até ONGs.

Enfim, aquele jovem havia perdido momentaneamente e no sentido mais estrito da palavra, a sua integridade pessoal. Deixou de ser inteiro quando seu ato contradisse seu belo discurso, cujo teor expressava seus valores, princípios e ideais. O moço desmontou-se, perdeu espaço dentro de si e diminuiu de tamanho. Sua autoestima foi ferida, ficando comprometida no sexto pilar!

De acordo com o Dr. Nathaniel Branden: “[…] quando nos comportamos de forma conflitante com o que julgamos apropriado, perdemos o respeito por nós mesmos”.

Sabe-se que a falta de integridade é tão ou mais nociva do que qualquer censura ou rejeição externa, pois contamina intensamente o senso de self. Pode-se evitar uma pessoa que está sempre nos humilhando e ofendendo, mas dificilmente se pode evitar a si mesmo em veladas sessões de autocensura. Por isto acredito que o pior dos verdugos seja a própria consciência.

Nenhum ser humano tem poder maior de condenação do que a própria pessoa contra si mesma e a depressão é uma prova disto. Não é a toa que oro a Deus diariamente pedindo livramento dos inimigos, mas principalmente do rigor de meu superego.

Não obstante, os momentos que comparo meu discurso com meus atos são importantes incubadoras de culpa, pois desperta-se naquele exato momento da autocensura moral uma espécie de juiz corregedor a que Freud intitulou superego, cujo moto maior é o princípio do ideal, lugar do inconsciente onde estão armazenadas as nossas referências mais sublimes juntamente com as mais elevadas expectativas, depositadas em nós pela sociedade e por nossos entes queridos ao longo de nosso desenvolvimento.

O murundu de ideais perfeitos construídos desde a infância em nosso inconsciente afronta a todo instante nossos impulsos mais pueris, idílicos, exercendo pressão enlouquecedora, cujo ego precisa lançar mão dos mais eficazes mecanismos de defesa para aliviar desconfortante compressão: esta angústia do ego causada pelo ultraje de nosso próprio ego moral ou superego.

Um desses mecanismos de defesa do ego é a projeção, cuja dinâmica consiste em lançar no outro aquilo que condeno em mim. Portanto, quando reconheço que fiz o que condeno o outro fazer, percebo-me isento de integridade e o espírito desfalece instantaneamente.

Uma das características menos toleráveis nas pessoas de modo geral e em especial naquelas pessoas que sempre condenamos é a falsidade, a hipocrisia: palavra-chave de toda crítica aos dissimulados políticos. Quem já não repetiu a frase “fulano é mentiroso” ou ”deputado X é falso, enganador, um hipócrita!”. Parece que ao amaldiçoar o outro por sua falta de integridade, tenta-se expurgar de si mesmo esta tragédia interna que corrompe a alma e contamina o espírito.

Daí a repercussão avassaladora que tem a falta de integridade sobre a autoestima. Quem não tem pecado que atire a primeira pedra! Quem nunca foi hipócrita ou mentiroso?

A raiva e o ódio que estava em Caim ou em Hitler também podem estar em mim, assim como a generosidade de Abel e o amor de Cristo também podem estar em mim. Tenho em mim o que há de melhor e o que há de pior na espécie humana. Ao admitir isto me vejo com mais integridade, pois deixo de ser apenas quem eu gostaria de ser (a melhor parte) para admitir ser quem eu realmente sou (todas as partes).

Tirar uma doença do CID – Código Internacional de Doenças não a fará desaparecer, assim como refutar uma característica repudiante não a eximirá de existir em mim.

Reprimo e expurgo aquilo que julgo não prestar ou repudio em mim; mas afloro e evidencio o que mais me agrada. Contudo, não me deixo iludir haver pleno controle sobre estas forças interiores. Dado que as circunstâncias, as pessoas e o meu estado geral complementam tais forças de controle a cada instante que vivo. Em função do descontrole destas forças, posso perder ou recuperar minha integridade pessoal a todo instante.

Na experiência do Dr. Nathaniel Branden, ao aplicar dinâmica onde solicitava aos participantes que completasse a frase: “Eu seria mais íntegro se…” então algumas respostas surgiram, tais como: …eu cumprisse minhas promessas; …eu admitisse minhas falhas, erros ou inabilidades qualquer ao invés de mascará-las descaradamente.

Assim, ser íntegro é não rir de piadas das quais realmente não se acha graça nenhuma; é admitir as qualidades e virtudes de um concorrente; é dizer não quando se tem vontade; é não super faturar o recibo do reembolso; é reconhecer a responsabilidade que tem sobre as pessoas; é não desviar objetos do escritório para uso particular.

Enfim, na opinião de cada participante ser íntegro é o mesmo que fazer a coisa certa, empreendendo congruência entre aquilo que se fala e aquilo que se faz, sabendo que as virtudes que a autoestima nos pede nem sempre são as mesmas que a vida nos exige.

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Conforme minha proposta, apresentei o sexto pilar da auto-estima.

Roberte Metring

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Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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