Certa vez eu anunciei uma vaga de emprego. Dezenas de currículos chegaram ao meu e-mail, inclusive o da esposa de um amigo que eu não poderia (não poderia?) deixar de fora do processo seletivo. Escolhi alguns com o perfil profissional mais alinhado à proposta de trabalho para o cargo anunciado e, então, agendei algumas entrevistas, pois precisava identificar nos candidatos algo que os currículos não mostram.

No dia da entrevista a esposa de meu amigo compareceu entre algumas candidatas que chegavam vestidas como se fossem para uma festa; outras tão formal como se fossem trabalhar no Fórum; e outras ainda tão desleixadas que pareciam não ter espelho em casa. Além disto, reparei que o discurso era artificial, parecendo que decoraram dicas de algum livro do tipo “Como passar em entrevistas de emprego”, um desastre!

A esposa do meu amigo estava tão confiante em relação a vaga, que estava nítida a expressão de desprezo ao olhar as concorrentes. Foi uma das primeiras a ser dispensada.

O ponto comum entre as candidatas era que cada uma tentava atender ou contestar expectativa que mal sabiam qual seria, pois não perguntaram antes qual o traje para a entrevista ou quais os detalhes do trabalho, ou seja, tentaram atender uma eventual exigência com base apenas em suas ocultas suposições, sem levar em consideração se aquela exigência era real ou não e, sendo real, como seria exatamente para que pudessem decidir atender ou não. Não fizeram isto, pois não acreditavam que tinham este direito e dever para consigo mesmas: A atitude da autoafirmação!

Enfim, as pessoas tentam (como eu tentei durante muitos anos) a todo momento atender ou confrontar expectativas alheias sem saber se tais expectativas existem e em que forma ou condições elas existem, pensando que desta forma estão se afirmando perante o outro. Assim, retiram de si a oportunidade da escolha e se obrigam a parecer com quem não se é, forjam máscaras pelo simples fato de querer incondicionalmente agradar ou desagradar propositadamente o outro em função de sua cegueira histérica, sujeitando-se a roupas, situações e posicionamentos que intimamente não gostam ou não concordam, traindo a si mesmas.

Não me refiro aos diferentes papeis que exercemos como filhos, pais, professores etc. Em cada papel um comportamento e uma atitude determinada e isto é completamente aceitável e pertinente. Também não me refiro a cumprir regras que anteriormente tenha aceitado cumprir de comum acordo. Refiro-me à sujeitar-se incondicionalmente às convicções alheias para ser aceito ou não ser rejeitado pelo outro.

Contrariar a si para agradar ao outro é uma das piores formas de traição e, geralmente, depois de um tempo a pessoa desenvolve desde vergonha até raiva de si mesma pela auto-traição, afetando consideravelmente sua auto-estima, que é a qualidade de amor e consideração que mantém por si mesma. Como gostar de si mesma quando se trai?

No caso da rebeldia, quando se faz algo que agride o outro é igualmente prejudicial à auto-estima. Conheço pessoas que sustentam remorso por ter se exaltado e agido de forma bruta, magoando pessoas quando na verdade não são adeptas a este tipo de comportamento. Geralmente se consideram calmas, controladas e educadas, mas para supostamente afirmar-se perante o outro, desnecessariamente deixam de lado a urbanidade e partem para a grosseria como única maneira de defender uma idéia ou convicção própria, decepcionando a si mesma.

Ser “curto e grosso” não é sinônimo de sinceridade e autenticidade, muito menos de auto-afirmação, é sinal de auto-estima fragilizada, ou no mínimo, falta de educação mesmo. Não é comum à pessoa com auto-estima saudável agir com agressividade quando a situação não justifica tal apelo.

A agressividade é admitida nos seres humanos em caso de eminente risco pessoal e em legítima defesa. Se alguém usa de agressividade para defender uma idéia própria é porque inconscientemente considera em situação de risco pessoal, o que seria totalmente incoerente no ponto de vista lógico.

Embora minha, é apenas uma idéia cuja aceitação ou rejeição pelo outro, de forma alguma, pode colocar em risco a minha existência. Neste sentido, o Dr. Nathaniel Branden defende que o princípio da auto-afirmação é a disposição que a pessoa tem para tratar a si própria com respeito em todos os seus contatos diários e relacionamentos. Não se vê necessidade o uso e aplicação indiscriminada de comportamento agressivo para defender as próprias convicções.

Não se trata apenas de uma possibilidade, mas de um direito universal que deve ser reconhecido pela própria pessoa. É preciso acreditar que se tem o direito de ser quem se é, conscientemente. Auto-afirmação sem consciência é pura estupidez, como o caso das candidatas que chegavam mal arrumadas e diziam que as pessoas tinham de aceitá-las como elas são, afirmando: “Se gostar bem, senão gostar amém!”. Elas tinham razão até certo ponto, mas faltou-lhes consciência, pois o simples fato de direito em ser quem é, tornam desnecessários o comportamento e discurso ofensivos.

Para empreender atitude de auto-afirmação não é necessário ser arrogante, estúpido ou imperativo. Basta dizer natural e educadamente que gosta ou não gosta de certas coisas; ou que prefere determinada linha de pensamento do que outra. Que gostaria ou não realizar determinadas tarefas de trabalho.

Em outro extremo a ausência da auto-afirmação gera timidez, medo de falar e se apresentar em público; a pessoa receia expressar suas idéias e, com aquele sorriso sem graça, acaba por fingir concordar com as idéias dos outros, entrando em contradição sistematicamente. Quanto mal à autoestima faz a falta de posicionamento, de auto-afirmação.

Não são poucos os profissionais que sofrem a síndrome de burnout, entre outras inúmeras doenças laborais. Uma parte, acredito, porque além de todos os percalços naturais da profissão, tais profissionais também não se respeitam e realizam tarefas ou assumem funções que contrariam suas crenças, valores e vocações em função do salário apenas. Esta é uma forma prática de vender um pedaço da auto-estima, tornando-se morno e indiferente com o trabalho e as coisas do trabalho. Neste caso é hora de procurar o trabalho certo para fazer já que não consegue fazer bem feito o trabalho que se concordou fazer até então.

Toda passividade é, de alguma forma, uma atitude sabotadora, ou de si, ou do outro, ou da instituição. Para Branden, “certas pessoas param e se movimentam como se não tivessem direito nenhum ao espaço que ocupam”. Quando você ver ou ouvir alguém fazendo ou falando algo que você repudia, conteste educadamente, ao invés de temer ser rejeitado(a) ou desagradável. A auto-estima não perdoa passividade.

Por outro lado, quando um profissional tem atitude da auto-afirmação este coopera com boas idéias, se empenha em desenvolvê-las, “briga” por elas, buscando apoio e superando dificuldades com determinação e persistência, sempre de uma forma prazerosa e produtiva porque está certo e consciente daquilo que acredita e tem esperança realizar, sem precisar destruir o outro.

Quantas vezes traí a mim mesmo tentando me adaptar a pessoas e circunstâncias das quais eu não concordava, trabalhando em empregos medíocres e insignificantes para mim. Pensava que aquelas pessoas e oportunidades seriam únicas e eu não poderia perdê-las. Era puro auto-engano. Depois de um tempo de sofrimento e muita depredação de minha auto-estima acabava por me afastar daquelas pessoas e trabalho. Deveria ter tomado uma atitude de auto-afirmação desde o início, durante a entrevista teria sido o ideal, ficando do meu próprio lado e poupado a mim mesmo de tanta angústia. É preciso “cortar os fios” antes que a bomba exploda, ou melhor, antes de implodir o quarto pilar da auto-estima.

Algumas daquelas candidatas que mencionei no início do texto se chatearam comigo por eu não tê-las contratado, inclusive a esposa de meu amigo. Porém, disse a cada uma o que eu pensava sobre o perfil delas em relação à vaga, sempre de uma forma gentil e procurando ser construtivo em minha devolutiva, pois não me agradaria deixá-las pior do que quando chegaram. Sempre acreditei estar fazendo um favor a elas mesmas, pois não consegui perceber atitude de auto-afirmação e empregá-las somente em função de suas necessidades pessoais ou de uma amizade seria grave irresponsabilidade de minha parte. Certamente eu teria causado prejuízos à auto-estima delas e principalmente a empresa e equipe de trabalho. Em um lampejo de consciência, acabei por fazer um favor a todos, inclusive a mim mesmo quando decidi experimentar a atitude da auto-afirmação.

Por mais que algumas pessoas possam ser importantes, nada justifica a negação ou supressão de nossas próprias opiniões. Ser auto-afirmativo é estar do próprio lado e respeitar as próprias opiniões sem, contudo tomar atitudes estúpidas em relação à opinião das demais pessoas. Neste aspecto, a atitude de auto-afirmação exige equilíbrio entre coragem e sabedoria!

Prof. Chafic Jbeili

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Conforme minha proposta, apresentei o quarto pilar da auto-estima, reproduzindo o texto com autorização do autor.

Roberte Metring

Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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