Raramente leio ou estudo algo sem associar, mesmo que não intencional ou conscientemente, com as questões educacionais (não acadêmicas) ou no desenvolvimento saudável do ser humano. O mesmo ocorreu quando li sobre o PÃO DA VERGONHA.

A questão do PÃO DA VERGONHA, originada nas leituras da Kabalah (e me perdoem os cabalistas se eu simplificar demais a explicação, mas vou me ater a objetividade da ideia que quero expressar, aberto à criticas e correções), oriunda do Judaísmo,  de forma alguma pode passar ignorada no que diga respeito às relações entre pais e filhos, educadores e aprendizes, e tem ligação direta com vários tipos de problemas que tenho atendido na prática clínica, de forma relativamente contumaz.

Conta a Cabalah, que no início, tudo era Deus, o CRIADOR,  a grande e pura energia geradora, que possuía em si o grande desejo de doação, porém, não havia para quem. Desejando doar, Deus, o CRIADOR, criou a criatura para que esta, na sua gloriosa bondade, pudesse se beneficiar em receber tudo de bom e maravilhoso que Deus, o CRIADOR,  era capaz de criar (ou seja, TUDO, pois a capacidade divina de criar é ilimitada no tempo e no espaço). Mas essa criatura recebeu também, de alguma que ainda não me foi possível entender, a consciência e o livre-arbítrio.

Claro que um mundo onde recebamos tudo, sem precisar fazer nada, nos traz a exata e equivocada  noção de paraíso; paraíso que todos os humanos continuam procurando, principalmente quando jogam na loteria. Observem que sempre que a mega sena acumula, os repórteres saem perguntando nas filas das lotéricas o que as pessoas fariam com aqueles milhões, e as repostas acabam convergindo todas para o mesmo lugar final: primeiro parar de trabalhar e depois fazer NADA. As pessoas querem receber o prêmio, e viver somente do prazer. Qualquer um sabe ser isso impossível, pois o simples fato de ter tanto dinheiro para cuidar já fará a pessoa entender, muito rapidamente, que o paraíso exige trabalho ou vivará o inferno (talvez no inferno o trabalho não seja necessário).

Bem, voltemos ao tema. A criatura então, num determinado momento, percebeu que estava recebendo demais, e sua consciência lhe faz pensar que deveria haver uma forma de retribuição adequada. Na vida prática isso também ocorre. Se alguém é servido demais, sente-se envergonhado se não puder retribuir à altura, não é mesmo? Por esta razão, por não poder retribuir à altura, mesmo que o doador nada esteja cobrando, o recebedor é capaz até mesmo de deixar de receber, ou mesmo se revoltar em receber tanto, começando a inibir a relação doador-recebedor (salvo em algumas patologias psíquicas onde alguém resolve usurpar alguém).

Voltando novamente ao tema, a criatura percebeu que estava recebendo sem merecer, o que gera, pela ação da sua consciência, o sentimento do PÃO DA VERGONHA, que é o pão recebido sem méritos, e sem possibilidade de retribuição. O problema é que a criatura foi criada para receber, então não saber criar.

Dessa forma, a criatura dirige-se ao CRIADOR, e pede para o CRIADOR  parar de doar, ela quer parar de receber, pois que também quer ser um criador (estado de consciência e livre-arbítrio). Nesse ponto, o CRIADOR, em profundo respeito ao desejo de sua criatura, paralisa o processo de dar. Assim, cria-se imediatamente um  vácuo onde a criatura passa a existir, e poder agora desenvolver seu dom de criar. A criatura se desprende do CRIADOR, mas leva consigo uma chispa, uma centelha Daquele, e então, como uma pequena molécula do CRIADOR, torna-se um criador também, agora uma criatura-criadora. Com os limites de quem não é o CRIADOR original, inicia sua parte no desenvolver do universo, e o CRIADOR lhe dá a oportunidade de criar qualquer coisa.

Este fato promoveu uma ruptura entre CRIADOR e criatura-criadora, ruptura ocorrida por respeito do CRIADOR  à esta. E iniciou-se então uma nova ordem nas coisas, e o pequena criatura-criadora agora poderia criar o que bem desejasse, e assim foi. Porém, em algum momento a pequena criatura-criadora percebeu que, podendo criar muito, como uma faísca do CRIADOR, sentiu igualmente a vontade de praticar o espírito da doação.

Mas doar para quem? Não poderia ele criar e doar algo  para o CRIADOR, pois Este já tinha de tudo, e se não tivesse, certamente, poderia criar. O pequena criatura-criadora concluiu que não se sentiria completa se pudesse criar, mas não pudesse partilhar.  Desta forma, a pequena criatura-criadora sente o desejo de criar também uma nova criatura que desejasse receber. E assim se sucedeu, até que a consciência desta nova criatura  lhe apresentasse novamente o PÃO DA VERGONHA, e o processo se repetisse, como se repete, indefinidamente.

Bem… é fácil perceber a continuidade da história, e que o desmembramento disso tudo não se tornou numa tarefa simples, pelo contrário, se iniciou uma intrincada rede de fatos e acontecimentos que até o momento fica difícil de desmembrar para entender.

Não vou questionar aqui se a história é inspirada, ou se trata-se de simples alegoria, metáfora, parábola ou qualquer outra coisa. O que importa é que ela, a mim, faz sentido, e vou transpor agora ao que tenho encontrado nos meus atendimentos.

Após passados tantos milênios da existência humana, vindo que viemos de períodos repressivos, e de afastamento da natureza de alguma forma, os pais atuais resolveram que seus filhos não devem ser privados de nada, que merecem tudo, e que eles, os pais, tem a obrigação de DAR. Se compararmos à história da criação apresentada acima,  não parece ter nada errado. Onde então está ocorrendo algo que possa dar tantos problemas na criação, e no desenvolvimento dos seres para que não se sintam engrandecidos e respeitados?

Na história, o CRIADOR dá, também, à criatura, a consciência e o livre-arbítrio, e, ainda na história, a criatura desperta essa consciência sozinha porque este despertar já fazia parte de sua essência, que pela proximidade com o CRIADOR, era bastante pura.

Na nossa atual sociedade, está difícil de ver este despertar voluntário da consciência do PÃO DA VERGONHA, o que passa a exigir que seja um dos critérios básicos da educação familiar, produzir tal fenômeno. Porém, devido às necessidades que pais e mães tem em relação a um passado histórico repressivo, hoje vemos as famílias polarizadas entre pais que acham que tem a obrigação de dar, dar e dar, e filhos que se acham no direito de receber, receber, receber. E assim tem sido, dia a pós dia, e no momento temos uma quantidade enorme de pessoas que não despertaram ainda a consciência para o PÃO DA VERGONHA, e quando seus desejos e caprichos não são atendidos, procuram culpados fora de si, que podem ser o pais, a sociedade, o governo e assim por diante.

Sem a consciência do PÃO DA VERGONHA, que remete diretamente ao principio do merecimento, as pessoas não tem a capacidade e a oportunidade de vivenciarem o que lhes faria sair do lugar comum para construir seu lugar real. Em decorrência da falta do sentimento de merecimento despertado, sem essa consciência do PÃO DA VERGONHA, não tem também a motivação necessária para a construção de um mundo onde a reciprocidade possa ser verdadeira. O PÃO DA VERGONHA, conforme mostra a história, é necessário para que o universo continue a ser criado. Sem ele, tudo é marasmo, tudo é falta de iniciativa, tudo é falta de motivação, o que me leva a verificar que vários quadros de apatia, depressão, ansiedade, angústia, estão bastante associados a esse processo.

Esta reflexão mira, certamente, os pais, no sentido de fazer perceber que, muito menores que o CRIADOR, precisamos desenvolver a mesma humildade no sentido de estimular em nossos filhos o PÃO DA VERGONHA, ou seja o despertar do merecimento, e o treinamento para lidar com tal fato. Precisamos cuidar de promover estados em que o merecimento seja uma constante, e não uma variável. Precisamos deixar de ter pena de nossas crianças (no melhor sentido da palavra), e dar-lhes o exato sentido de que, desenvolvendo o merecimento, igualmente desenvolverão a autoestima  e a autopreservação, por conseguinte despertarão processos de produção pessoal, de evolução, de sucesso, de independência, de prazer, de autoestima, de existência verdadeira.

Para ajudar a pensar ainda um pouco mais – embora quem me conheça já tenha ouvido de mim isso – vamos refletir sobre um time de futebol que sempre ganha. Não importa o que aconteça, o time sempre vence. Sempre e sempre, como num passe de  mágica, as coisas se resolvem. Como os jogadores se sentirão? Qual o ânimo de se esforçar, de treinar, de encontrar novas táticas e técnicas? Para que, se no final, mesmo fazendo nada, o time vai vencer mesmo?

O que estimula o jogo não é a vitória, é exatamente a dúvida sobre se o time vai vencer ou não. E na maioria das vezes o time que está mais confiante, cheio de si, não é aquele que acaba errando em algum momento importante e acaba perdendo o jogo (lembre do 7×1)?

Pois bem, se no dia a dia não refletirmos sobre isso, se nossos filhos jogarem nos times que sempre vencem, não haverá necessidade de evolução, de motivação, de energia, de crescimento, de superação, de existência. Restará o vazio natural, e, bem provavelmente, os vários estados alterados de comportamento e consciência, no seu sentido doentio, surgindo problemas relacionais, problemas de saúde, problemas de aprendizagem, e um número sem fim de outros problemas que acabam atrapalhando a vida saudável e feliz das pessoas.

Enfim, creio que eu poderia escrever mais alguns dias sobre isso, mas por ora me parece que a ideia já se fez presente, e então, desejo a todos boas reflexões.

Podem comentar,  trocar informações e compartilhar a reflexão na medida que julguem pertinente ou necessário.

Saúde e paz.

Roberte Metring

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Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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