Faleceu ontem a pessoa que atrapalhava sua vida […]

Esse recorte é de um texto intitulado Nota de Falecimento.

Motivado pelas energias desse dia de finados, em que se homenageiam os mortos de todas as cores, classes sociais, níveis intelectuais, poder econômico, político ou financeiro, resolvi provocar uma pequena reflexão sobre a existência, muitas vezes pífia e insossa para muitas pessoas.

Sem maldade, mas correndo o risco de grandes censuras dos mais moralistas, vou afirmar: como seria bom nosso mundo se morressem de uma vêz todos aqueles que nos atrapalham, atrapalham nossa evolução, nosso amadurecimento, nossa promoção, nosso namoro, nosso casamento, nossos filhos, enfim… plagiando Sartre“O inferno é outro”, então seria maravilhoso acabar com essa vida infernal.

Porém, prestem atenção ao conto na sua íntegra:

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Um dia, quando os funcionários chegaram para trabalhar, encontraram na portaria um cartaz enorme, no qual estava escrito:

“Faleceu ontem a pessoa que atrapalhava sua vida na Empresa. Você está convidado para o velório na quadra de esportes”.

No início, todos se entristeceram com a morte de alguém, mas depois de algum tempo, ficaram curiosos para saber quem estava atrapalhando sua vida e bloqueando seu crescimento na empresa.

A agitação na quadra de esportes era tão grande, que foi preciso chamar os seguranças para organizar a fila do velório. Conforme as pessoas iam se aproximando do caixão, a excitação aumentava:

– Quem será que estava atrapalhando o meu progresso? Ainda bem que esse infeliz morreu!

Um a um, os funcionários, agitados, se aproximavam do caixão, olhavam pelo visor do caixão a fim de reconhecer o defunto, engoliam em seco e saiam de cabeça abaixada, sem nada falar uns com os outros.

Ficavam no mais absoluto silêncio, como se tivessem sido atingidos no fundo da alma e dirigiam-se para suas salas.

Todos, muito curiosos mantinham-se na fila até chegar a sua vez de verificar quem estava no caixão e que tinha atrapalhado tanto a cada um deles.

A pergunta ecoava na mente de todos: “Quem está nesse caixão”?

No visor do caixão havia um espelho e cada um via a si mesmo…

(texto atribuido a Luiz Fernando Veríssimo, mas cuja autoria na verdade parece ser deconhecida – veja link)

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Voltemos à nossa reflexão.

No caso da historeta, o problema era quem atrapalhava o progresso dentro da empresa. Mas e o progresso na vida pessoal?

Quantos de nós tem em sí o próprio inimigo, e fica procurando-o na imagem do outro? Quantos de nós precisaria insistentemente encontrar, emoldurando seu espelho no banheiro, um caixão de defunto? Quantos de nós deveria providenciar o velório e o enterro metafóricos de nós mesmos, de nossos medos, rancores, inseguranças, nossas relações desastrosas, nosso emprego desprazeroso, etc.

Minha experiência clínica mostra que as pessoas vivem procurando seus bodes expiatórios: patrões, namorados, esposas e maridos, filhos, amigos, etc. etc. etc…. quando na verdade, precisariam começar providenciando o velório simbólico de si mesmos. Lembro do dia em que um professor, colega de jornada por esse Brasil, me falava, numa conversa despretenciosa numa cidadezinha do interior do PA, que sua vida só passou a fazer sentido e trazer abundância quando ele passou a reponsabilizar-se por si, pelas suas virtudes, pelos seus defeitos, pelo seu sucesso, lutando por si sem prejudicar alguém, e sem culpar ninguém.

A física já mostrou, desde a idéia da bomba atômica, que na verdade, somos um grande amontoado de espaço vazio, de um nada rigorozamente organizado, e que nossa sensação de matéria, solidez e segurança, vem da grande velocidade com que os eletrons giram em torno do núcleo, não dando chance que o nada se manifeste de forma perceptivel a nós humanos.

Penso que devemos então colaborar com a natureza, preenchendo nossos espaços vazios de planos, intenções, criações energéticas favoráveis, e, acima de tudo, percebendo que nosso pequeno mundo, somos nós mesmos.

Se num dia como hoje, somos capazes de homenagear aos que já se foram, e fazemos isso abolindo seus erros e defeitos ao longo da vida, talvez o melhor recurso para nós mesmos seja exatamente simbolizar o nosso eu de ontem como um ser morto, homenageá-lo, e tocar a vida para frente.

Portanto, deixo o convite à reflexão: se sua vida está ruim, não será hora de providenciar o enterro daquele que te atrapalha, e ao mesmo tempo ressuscitar um ser determinado e poderoso?

Roberte Metring

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Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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