“Estou quebrado por dentro. A depressão que lentamente foi me destruindo, já me devorou, e não consegui superá-la. É incrível o quanto dói. Ninguém está mais atormentado, nem debilitado do que eu”, diz a carta de despedida escrita pelo vocalista Kim Jong-hyun, que morreu na segunda-feira (18/12/17), em Seul, aos 27 anos, vitima de suicídio. (Fonte: G1)

Para quem não sabe o que é depressão, não é uma simples tristeza. Depressão é um animal estúpido e grotesco que invade e habita no organismo e no psiquismo das pessoas sem distinção de credo, raça, classe social, poder financeiro, exibicionismo ou anonimato.

Kim era um vocalista popular e famoso na Coréia, assim como outros “Kim´s” nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Japão, na China, na Holanda, no Canadá, no Brasil, e em todos os lugares do planeta em que você possa pensar. Mas sua fama, de Kim, e poder financeiro não blindaram seu organismo e seu psiquismo contra esse monstro devorador. Nada blinda a invasão desse insano grotesco, porque as portas para a depressão se abrem por dentro. O monstro entra porque é convidado. Mas como assim?

Se nossa criação ocorre de forma lenta mas consistente, se somos forçados a entender que a vida deve ser vivida com garra, prudência e sabedoria, se não nos deixamos ser conduzidos por um Ego narcisista, movidos pelo desejo de apreciação, aprovação ou aceitação, se aprendemos a enfrentar as dificuldades com a naturalidade de quem resolve um problema matemático, provavelmente estaremos com nossa estrutura sólida, rígida. Mas não é isso que estamos vendo atualmente, e, concomitante, nunca vimos tantos suicídios ocorrerem a nível planetário como agora.

Jovens e adolescentes estão fragilizados, pois de alguma forma, graças a muitos pregadores (científicos, religiosos, aproveitadores, familiares, etc.) que os estão alijando dos processos de desenvolvimento e enfrentamento para o crescimento, estamos infantilizando a sociedade de uma forma descontrolada.

Mais e mais nossas crianças e adolescentes são cuidados como se não pudessem sair do ovo, como se o ninho fosse eterno. Suas ações são substituídas por “instrumentos” que usam para acessar qualquer coisa – pais, serviçais, amigos, e, portanto, não precisam fazer muito, a não ser estudar e brincar (e em idade ainda precoce, namorar, transar, engravidar, fumar, beber, se drogar, etc…), porém, não podem assumir responsabilidades, não podem encarar a vida com honradez, sob a égide de que “meu/minha filho(a) deve se dedicar a estudar para ser alguém na vida, então não deve se envolver com outras coisas”. Sim, já ouvi isso tantas vezes que não saberia mesmo dizer quantas.

Não defendo em hipótese alguma o escravagismo familiar, nada disso. Mas o que temos hoje é uma libertinagem educacional familiar. Basta olhar para os lados e veremos, sem nenhum esforço, a grande confusão entre direitos e deveres, onde os deveres não existem (a não ser os de estudar e tirar boas notas, principalmente no ENEM), mas os direitos são muitos, na verdade, todos.

Pais, atualmente, temem perder o amor dos seus filhos, e para prevenir isso, fazem tudo, concordam com tudo, se deixam conduzir pelos caprichos e desmandos de seus amados filhos e filhas, ou, de outro lado, vemos o total abandono, tanto do ponto de vista social (com filhos literalmente abandonados nas ruas), ou do ponto de vista familiar (com seus filhos abandonados dentro de casa, entregues às babas, à televisão, ao game, ou coisa pior), já que no momento os pais devem prover a casa, tanto do que é necessário (na grande maioria das vezes), como do supérfluo (em algumas poucas rodas privilegiadas). Nada mais de estímulo à criatividade (tudo se compra pronto), nada mais de estímulo à socialização através das brincadeiras (que coisa mais chata brincar, suar, correr, se arranhar, quando é muito melhor um X-box, ou uma série da Netflix – destas últimas a maioria dos pais não sabe nem do que se trata, mas os filhos são obrigados a assistir, porque senão não tem assuntos para a patota).

A máxima “primeiro a obrigação, depois a diversão”, não tem mais espaço em nossa atualidade. Nossas crianças são tratadas como seres incapazes, indefesos, que tem corpos solúveis a ponto de não poderem mesmo lavar um prato sem que se fique a impressão que estão sendo escravizados, ou que um pedaço da mão possa diluir na água com detergente. E isso, tem permitido a formação de estruturas psíquicas muito frágeis, e corpos degredados.

Por isso, não me assustarei se o número de suicídios se tornar assustador nas próximas décadas, até porque, nossos adolescentes cada vez mais vivem um mundo virtual (não  estou falando em internet, mas em virtual no sentido de um mundo que “pode vir a ser”, em vez de um mundo que é). Dessa forma, há a necessidade de ídolos, de formadores de opiniões (claro, já que não se tem mais opinião própria, baseada em experiências, mas suposições próprias baseadas em idolatrias e modismos). Dessa feita, para cada ídolo suicida, uma falange de seres infantis e adolescentes inicia um perigoso processo de identificação, e fica inevitável a pergunta: “não seria o suicídio o jeito mais fácil de resolver os problemas?”.

Lembrem-se, a depressão só se instala quando as portas não estão protegidas. Se não nos conscientizarmos de que a fechadura dessas portas só é aberta por dentro, nada poderemos fazer. Se não nos conscientizarmos de que a educação deve servir ao propósito maior de ensinar nossas crianças a controlar o abre e fecha de seu mundo emocional, o sobe e desce de seu mundo psíquico, o vai-e-vem do seu mundo orgânico em permanente estado de mudança hormonal, nada poderá ser feito depois que, uma vez instalada a depressão no lado de dentro, o primeiro pensamento seja realmente resolver a vida acabando com a vida.

Se queremos uma sociedade de seres adultos sadios, é preciso criar e educar crianças no mundo da realidade, com obrigações e prazeres sendo usufruídos concomitantemente. Se não queremos ver nossos filhos sendo tragados pela dor no futuro, precisamos educá-los no amor disciplinado, coerente e sábio, no presente.

Saúde e paz.
Roberte Metring

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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